Desenvolvido pelo estúdio brasileiro Regular Studio e publicado pela Top Hat Studios, MOTORSLICE chega ao com uma premissa ousada: transformar o trabalho de rotina de sua protagonista sonolenta, P, em uma batalha mortal contra titãs de metal. Unindo de forma explícita a solidão e a escala monumental de Shadow of the Colossus à urgência urbana e vertical de Mirror’s Edge, o título se ancora em uma direção de arte fascinante que mistura pixel art e espaços liminares. Empacotado por uma trilha sonora composta por Pizza Hotline, MOTORSLICE se apresenta não apenas como um teste de agilidade e parkour, mas como uma obra sobre a insignificância humana diante de uma arquitetura opressiva.
HISTÓRIA: Rotina, Isolamento e o Fim do Mundo
A narrativa nos apresenta a P, uma garota aparentemente sonolenta e resiliente que trabalha como uma Slicer, operária encarregada de eliminar máquinas em uma megastrutura abandonada e opressiva. O que começa como mais um trabalho rotineiro em um cenário desolador ganha novas proporções quando ela descobre uma entidade mecânica que vai muito além do esperado.
Ao lado de seu companheiro, um drone esférico defeituoso que, de forma metalinguística, atua como a própria câmera que o jogador controla, P explora um ambiente hostil e vazio. O jogo opta por um minimalismo narrativo absoluto: não espere longos diálogos ou cutscenes explicativas. A história revela-se no silêncio, na arquitetura e nos detalhes ambientais. Nos momentos de descanso, P interage com o robô em diálogos de tom contemplativo e reflexivo, reforçando a sensação de isolamento, solidão e o vislumbre de um mundo que ruiu.
GRÁFICO E SOM: Entre Espaços Liminares e as Batidas do Jungle
A direção de arte é um dos pontos fortes de MOTORSLICE. O jogo mescla a estética retrô de pixel art com elementos low-poly modernos. Os cenários são construídos para evocar o sentimento de espaços liminares, locais que transmitem sensações de transição vazio ou deslocamento, parecendo familiares, mas estranhamente desconectados da realidade. Um exemplo é um labirinto de pilastras gigantescas que criam múltiplos caminhos, gerando um efeito quase uncanny e opressor, evidenciando a pequenez da protagonista.

A trilha sonora, assinada por Pizza Hotline, é excelente e dita o compasso do jogo através de duas vertentes. Nos trechos de exploração e parkour, predominam melodias minimalistas e calmas que auxiliam na imersão contemplativa. Já nos momentos de combate intenso e lutas contra chefes, a trilha é impulsionada por influências pesadas de DnB e Jungle, funcionando como um motor rítmico que eleva a jogabilidade.
JOGABILIDADE: A Fluidez do Aço
A grande aposta de MOTORSLICE está na união indissociável entre mobilidade fluida e combate letal. O parkour aqui não é um mero meio de transporte, mas a sua principal ferramenta de sobrevivência. Você pode correr pelas paredes, deslizar por frestas, escalar cordas e usar o impulso para alcançar plataformas distantes. A grande assinatura do jogo é a motosserra de P. Além de arma, ela serve para a exploração: a protagonista pode fincar a ferramenta em superfícies metálicas para deslizar por grandes distâncias. O combate não perdoa erros, o jogo é punitivo e você morre rápido, mas flui de forma contínua: não é preciso parar para lutar; atacar, esquivar e correr fazem parte do mesmo fluxo dinâmico.

As batalhas contra os chefes são o ponto alto da experiência. P enfrenta máquinas colossais inspiradas em equipamentos de construção pesada, como tratores, escavadeiras e até um helicóptero. Inspirado por Shadow of the Colossus, os confrontos funcionam como puzzles de ação: é necessário escalar a estrutura do chefe enquanto ele se move, desviar de ataques e encontrar pontos específicos de metal para cravar a motosserra e rasgar a lataria inimiga até sua destruição.

Apesar do brilho dos chefes, o jogo peca na falta de variedade de inimigos comuns ao longo dos capítulos (pequenas escavadeiras e serras tornam-se repetitivas rapidamente e perdem o propósito). No entanto, o maior problema reside na inconsistência dos controles. Em desafios mais complexos que exigem precisão, como saltar de uma parede e agarrar uma barra atrás de você, o comando de pulo muitas vezes é interpretado como uma corrida pela parede, resultando em quedas fatais. A falta de responsividade imediata em transições rápidas de câmera e troca de superfícies gera mortes bobas que quebram o ritmo e frustram uma proposta que deveria ser cirúrgica.
Para quem gosta de explorar e completar tudo, o mapa esconde áreas secretas com robôs escondidos. Encontrar esses colecionáveis adiciona desafios opcionais de parkour e garante vidas extras valiosas para as lutas contra os chefes.
Pontos Positivos:
Identidade Visual e Atmosfera Únicas: A fusão de pixel art, low-poly e cenários liminares cria uma das direções de arte mais fascinantes e imersivas da cena indie recente.
Batalhas Contra Chefes Épicas: Os confrontos em grande escala capturam perfeitamente a essência de Shadow of the Colossus, transformando combates em quebra-cabeças verticais empolgantes.
Trilha Sonora: As composições de DnB e Jungle de Pizza Hotline casam perfeitamente com o ritmo frenético da jogabilidade de ação.
Integração Mecânica: A motosserra como ferramenta de combate e locomoção confere uma assinatura única ao fluxo de parkour.
- Exploração Recompensadora: Áreas secretas e desafios opcionais ajudam a expandir a longevidade da experiência.
- Integração Mecânica: A motosserra como ferramenta de combate e locomoção confere uma assinatura única ao fluxo de parkour.
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