[REVIEW] EM MIXTAPE CRESCER É INEVITÁVEL


Em Mixtape, o novo título da Beethoven & Dinosaur, a vida não é medida em anos, mas em rotações por minuto. O jogo nos coloca no banco do passageiro da jornada de Stacy Rockford e seus amigos na última noite antes da vida adulta, transformando a nostalgia dos anos 90 em uma explosão audiovisual. Mais do que um jogo, é uma curadoria sentimental onde a trilha sonora não apenas acompanha a história, ela dita o ritmo das memórias, provando que a adolescência pode ser caótica e confusa, mas sempre soa melhor quando tem a canção certa para amparar a queda. O jogo também entende algo essencial: para nós que não somos americanos não iremos entender 100% o sentimento de nostalgia que ele tenta passar, mas praticamente todo mundo conhece a sensação de associar músicas a fases específicas da vida. E o objetivo de Mixtape é justamente transformar esse sentimento em linguagem audiovisual. Um dos principais motivos que me fizeram comprar Mixtape foi justamente a quantidade de comentários, discussões e críticas que começaram a aparecer no X. E quase todas giravam em torno da mesma questão: isso realmente é um jogo?


Muita gente descrevia Mixtape mais como um filme interativo ou uma visual novel estilizada do que como um videogame tradicional. Alguns reclamavam da falta de desafio, da linearidade e das mecânicas simplificadas. Outros defendiam justamente essa proposta mais contemplativa, focada em narrativa, atmosfera e música. Quanto mais eu lia essas opiniões, mais curiosidade eu ficava para entender onde exatamente o jogo se encaixava. Depois de jogar, dá para perceber que ambas as visões fazem sentido. Mixtape realmente abandona boa parte das estruturas convencionais dos videogames para funcionar quase como uma experiência audiovisual interativa. Em vários momentos, ele parece mais próximo de um filme interativo, álbum musical e visual novel moderna, do que de um jogo tradicional baseado em desafio ou progressão. E talvez seja justamente isso que o torna tão interessante.

HISTÓRIA: Fragmentos de uma Juventude Compartilhada

A narrativa acompanha Stacy, Cassandra e Van enquanto eles perambulam por ruas vazias, lojas de conveniência e festas suburbanas naquela última noite clássica do cinema americano de coming of age (literalmente um rito de passagem para a idade adulta). Stacy sonha em ser supervisora musical em Hollywood, e isso contamina a estrutura do jogo: cada lembrança é apresentada como uma faixa em uma fita cassete.

O roteiro brilha ao capturar a autenticidade adolescente, os diálogos rápidos, as piadas idiotas no momento errado e o sarcasmo usado como escudo. Existe uma naturalidade rara na escrita, que evita transformar os personagens em arquétipos fáceis da cultura teen. Em vez disso, o texto encontra força nos silêncios constrangedores, nos apelidos ridículos e naquela intimidade silenciosa que só amizades muito profundas conseguem alcançar.

À medida que o trio busca álcool para sua última festa como menores de idade, o jogador mergulha em memórias que flertam com o surrealismo: uma perseguição policial com carrinhos de supermercado ou o primeiro beijo constrangedor não são retratados como fatos literais, mas como lembranças amplificadas pela intensidade da juventude. Narrativamente, Mixtape se aproxima muito mais de experiências focadas em sensações e atmosfera do que de jogos tradicionais. Há ecos claros de visual novels modernas e filmes interativos, especialmente na forma contemplativa como a narrativa conduz o jogador. Em vários momentos, a experiência lembra títulos como Life Is StrangeOxenfree e Night in the Woods, não pela estrutura de escolhas, mas pela maneira como transforma conversas aparentemente banais em algo emocionalmente significativo.

O jogo também acerta ao tratar a nostalgia não como simples desfile de referências, mas como temperatura emocional. As fitas cassete, quartos bagunçados, pôsteres e guitarras distorcidas existem menos para recriar os anos 90 e mais para discutir como certas emoções adolescentes permanecem universais independentemente da década.

GRÁFICO E SOM: Cinema

O estilo artístico é uma explosão de criatividade, misturando técnicas de animação que lembram Homem-Aranha no Aranhaverso com texturas granuladas de fitas VHS. As animações têm um toque de stop motion, priorizando a expressividade e a temperatura emocional em vez do realismo técnico. É um visual inquieto, saturado e onírico, que traduz visualmente a confusão mental da adolescência.


A trilha sonora é o pilar central. Com mais de 25 faixas licenciadas (incluindo bandas icônicas como DEVO, The Smashing Pumpkins e Iggy Pop), a música não é apenas fundo, ela é a diretora de cena. A curadoria é tão precisa que, mesmo para quem não viveu a época, as canções conseguem reorganizar o sentido das imagens na tela, funcionando como o motor emocional de cada capítulo.

JOGABILIDADE: Participando de Memórias
Se você busca sistemas complexos de progressão, Mixtape pode frustrar. O jogo se organiza como uma coletânea de pequenas interações sensoriais.
  • Mecânicas Fluidas: O gameplay alterna entre exploração leve, momentos de ritmo (apertar botões no tempo da música) e Quick Time Events (QTE) simplificados. Em alguns momentos, o jogo se aproxima bastante de um filme interativo.

  • Interface Minimalista: A ausência quase total de HUD mantém o jogador conectado à experiência visual e sonora, sem distrações.

  • Foco na Emoção: Não há interesse em fracasso ou punição. O objetivo é fazer o jogador participar da lembrança, seja observando pôsteres em um quarto bagunçado ou descendo uma ladeira em alta velocidade. Essa fragmentação mecânica reforça uma ideia interessante: recordar não é um processo linear. A mente salta entre imagens, sons e emoções sem respeitar continuidade lógica, e o jogo replica isso ao alternar constantemente ritmo, gênero e linguagem.

Pontos Positivos:

  • Intimidade e Autenticidade: O texto evita clichês de adultos tentando soar jovens, focando nos silêncios e conexões reais entre os amigos.
  • Direção de Arte Única: Uma das apresentações visuais mais vibrantes e originais dos últimos anos no cenário indie.
  • Trilha Sonora Impecável: A integração entre as faixas licenciadas e o que acontece na tela é magistral.
  • Experiência Concisa: Com cerca de 3/5 horas de duração, o jogo entrega sua mensagem sem enrolações desnecessárias.

Pontos Negativos:

  • Mecânicas Limitadas: Para quem prefere desafios tradicionais, a simplicidade das interações pode parecer rasa demais.
  • Público de Nicho: O forte componente geracional e o tom contemplativo podem não ressoar com jogadores que buscam ação ou sistemas profundos.
  • Linearidade Extrema: A jornada é guiada e oferece pouco espaço para experimentação ou escolhas que mudem o rumo da história.
RESUMO
Mixtape é menos um videogame tradicional e mais uma experiência interativa sobre o fim de ciclos. É uma carta de amor àquelas amizades que pareciam definitivas e às músicas que se tornaram fantasmas involuntários de nossas vidas. Embora suas limitações de gameplay sejam evidentes para os puristas, o título da Beethoven & Dinosaur triunfa ao capturar aquela sensação agridoce de crescer e perceber que a vida segue caminhos diferentes. É um jogo que não quer desafiar seus reflexos, mas sim tocar suas memórias.


NOTA: 9/10

Mixtape está disponível para PS5, Xbox X|S, Nintendo Switch 2 e PC (Steam e Epic Games).

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