Após mais de 100 horas enfrentando Trails Beyond the Horizon na dificuldade Nightmare, fica claro que a Falcom finalmente encontrou o equilíbrio que o arco de Calvard buscava desde Daybreak I. Longe da facilidade excessiva dos jogos anteriores, Beyond the Horizon transforma cada batalha importante em um verdadeiro teste de gerenciamento tático, exigindo domínio completo das novas mecânicas, planejamento de builds e leitura constante da ordem de turnos. Mas o maior triunfo do jogo não está apenas no combate: em meio à corrida espacial de Zemuria e ao caos político que envolve Calvard, a Falcom entrega uma narrativa gigantesca, surpreendentemente consistente e carregada de consequências para toda a franquia. Reunindo Van Arkride, Rean Schwarzer e Kevin Graham em três rotas paralelas, o título funciona tanto como uma celebração do legado da série quanto como o início do fim da longa saga de Zemuria.
HISTÓRIA: Conspiração Espacial e a Fragmentação de Zemuria
O pano de fundo de Beyond the Horizon é a iminente e inédita corrida espacial humana, capitaneada pelo presidente de Calvard, Roy Cramheart. Em uma Zemuria cada vez mais moldada pela tecnologia moderna, com smartphones, redes sociais, streaming e inteligência artificial, o programa espacial esconde segredos obscuros que atraem diferentes facções ao redor do continente. O jogo adota um sistema de três rotas paralelas e simultâneas (similar a Trails into Reverie), divididas entre três protagonistas icônicos: Van Arkride (e a Arkride Solutions), Rean Schwarzer (de Cold Steel) e Kevin Graham (de Trails in the Sky).

A divisão de tempo foca majoritariamente em Van (cerca de 70% a 80% da narrativa), o que impede que o elenco nativo de Calvard perca o brilho. A escrita é um triunfo em consistência: a rota de Van traz um desenvolvimento orgânico e focado em seu carismático elenco; a de Kevin mergulha em mistérios profundos e revelações ligadas diretamente a Trails in the Sky the 3rd; e a de Rean serve como um fechamento emocional há muito aguardado pelos fãs de Cold Steel, trazendo de volta membros da Class VII com novos visuais e a tão esperada revanche gestada desde os pós-créditos de Reverie.

Além disso, Beyond the Horizon consegue algo raro dentro da própria franquia: manter um ritmo extremamente estável ao longo de mais de 100 horas, evitando os altos e baixos que marcaram Daybreak II. A Arkride Solutions se consolida como um dos grupos mais fortes e carismáticos de toda a série, graças à química natural entre os personagens e aos excelentes Connect Events. Kevin entrega as maiores revelações e mistérios do jogo, enquanto Rean proporciona uma sensação genuína de encerramento emocional para fãs da saga Erebonia.

Surpreendentemente, as três rotas operam de forma quase totalmente isolada, sem interações diretas entre os grupos no mundo real até o clímax. A trama escala para proporções globais inéditas na franquia, recontextualizando mistérios de jogos passados e culminando em um dos finais mais inacreditáveis e cheios de cliffhangers da história da Falcom. Muitas revelações alteram completamente a percepção de personagens e eventos antigos, dando ao jogo um enorme peso dentro da cronologia de Zemuria e preparando o terreno para o começo do fim da franquia.
GRÁFICO E SOM: Limitações Técnicas
O motor gráfico é o mesmo de Daybreak I e II, o que significa que o jogo compartilha da mesma identidade visual e de algumas limitações técnicas de sua geração. Há quedas perceptíveis de framerate ao carregar certas cidades avançadas. No entanto, o jogo brilha intensamente na direção das suas cutscenes: as batalhas coreografadas e sequências de ação atingiram o ápice da franquia. A cidade de Edith foi expandida com novos distritos, tornando-se a localização mais detalhada e viva de toda a série.

A dublagem em japonês continua entregando atuações de altíssimo nível. Destaque para a performance da nova Executora de Ouroboros (uma influenciadora digital), cuja dubladora entrega perfeitamente o estereótipo irritante e hiperativo de uma streamer moderna. Apesar da localização pro inglês continuar competente na adaptação de diálogos extensos e terminologias complexas da franquia, este talvez seja um dos jogos onde as escolhas de localização mais me desagradaram. Em diversos momentos, a adaptação parece excessivamente preocupada em modernizar a linguagem. Termos como bruh, deadass, gigachad, vibemaxxing e rage-baiting aparecem com frequência muito maior do que o esperado, especialmente nos diálogos da nova Executora (embora isso claramente faça parte da caracterização da personagem). Em algumas cenas sérias, a sensação é de estar ouvindo um personagem escrito diretamente por tendências do X ou TikTok, o que pode envelhecer muito mal com o passar dos anos.
JOGABILIDADE: Refinamento Tático e o Fim das Facilidades
Beyond the Horizon aprimora a mecânica híbrida de ação e turnos introduzida na saga Daybreak, adicionando camadas estratégicas que tornam os combates muito mais envolventes, especialmente na dificuldade Nightmare.
Novas Mecânicas (ZOC, Orders e BLTZ)O sistema ZOC permite desacelerar o tempo no modo de ação para quebrar a guarda inimiga ou ganhar dois turnos consecutivos no modo tático, essencial para roubar bônus de turno dos oponentes. Quando combinado ao gerenciamento da barra de Boost e aos S-Crafts, o sistema cria batalhas muito mais estratégicas e tensas.
O sistema BLTZ ativa assistências automáticas dos personagens que estão na reserva, enquanto o Awakening permite transformações em tempo real no campo (como o estado Grendel de Van) criando combos devastadores ao lado do ZOC.
Esqueça a facilidade dos jogos anteriores. A Falcom reequilibrou os Quartz (como o EP Cut), que agora multiplicam os custos em frações em vez de porcentagens fixas, eliminando a possibilidade de conjurar magias de graça. Os S-Crafts não podem mais ser usados consecutivamente pelo mesmo personagem e não roubam mais bônus de turno fixos. O sistema de evolução de Crafts finalmente ganhou peso real, recompensando o uso contínuo das habilidades. Já o encaixe de Shard Skills no Orbment se tornou muito mais importante para builds avançadas, aproximando o nível de personalização dos melhores momentos das trilogias Sky e Crossbell.
O local ainda abriga o Reminiscence Pedestal, revelando momentos cruciais e sombrios da história de Zemuria, funcionando como uma evolução espiritual dos Doors de Trails in the Sky the 3rd.
As missões secundárias (4SPGs) são as melhores do arco de Calvard, expandindo o sistema de tópicos (onde investigar NPCs específicos ramifica as soluções) e o alinhamento moral Law/Gray/Chaos. Edith, em especial, se beneficia absurdamente disso, consolidando-se como a cidade mais viva e interativa da série.
O jogo traz o retorno de minijogos como basquete, pescaria, hacking, cassino e até a possibilidade de contribuir para o blog de doces do Van. Uma das melhores adições de quality of life é a aba que permite assistir a todos os Connect Events perdidos sem a necessidade de múltiplos arquivos de salvamento ou New Game+.
Pontos Positivos:
Escrita Altamente Consistente: Equilibra com maestria o tempo de tela de três rotas sem perder o foco na Arkride Solutions ou desrespeitar o legado de Rean e Kevin.
Combate Primoroso e Desafiador: A introdução do ZOC e a reformulação das Orders criam o combate em turnos mais estratégico e recompensador da franquia.
Excelente Quality of Life: A possibilidade de rever Connect Events e o design em formato de tabuleiro do Grim Garten eliminam o aspecto maçante e o grinding excessivo.
Lore de Impacto Global: Os eventos e revelações da reta final mudam completamente o rumo de Zemuria e preparam o terreno de forma magistral para o fim da saga.
Fanservice Equilibrado: Grande quantidade de fanservice bem integrado ao roteiro.
Pontos Negativos:
Gírias de Internet Excessivas: O diálogo de uma das novas Executoras abusa de termos modernos de redes sociais de forma que pode quebrar a imersão de muitos jogadores. Mesmo se a pessoa tiver um conhecimento de japonês limitado a anime, vai perceber a diferença do diálogo original para o inglês (A não ser que você jogue com a dublagem em inglês).
Filmes Inúteis e Falta de Livros: O mini-sistema de assistir a filmes no cinema continua sem graça, e a ausência de séries de livros colecionáveis para leitura faz falta.
Desempenho Técnico Inconstante: Quedas de frames nas cidades.
Mecânica de Quick Arts Subutilizada: O sistema de magias rápidas no mapa de exploração continua sem propósito real no fluxo da jogabilidade.
RESUMO
The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon é o primeiro acerto do arco de Calvard. Ao trazer a maturidade da Arkride Solutions com o peso nostálgico de Rean Schwarzer e Kevin Graham, a Falcom entregou uma jornada de mais de 100 horas de conteúdo, um sistema de combate finalmente equilibrado e profundamente estratégico, sidequests excelentes, enorme quality of life e uma avalanche de revelações que recontextualizam praticamente toda Zemuria, Beyond the Horizon entrega exatamente o que fãs esperavam após os tropeços de Daybreak II. Mesmo reutilizando boa parte da base visual e estrutural dos jogos anteriores, o título consegue elevar praticamente todos os aspectos da fórmula. O resultado é um RPG gigantesco, emocionalmente devastador, mecanicamente refinado e narrativamente explosivo — encerrando sua campanha com um dos maiores cliffhangers já produzidos pela Falcom e deixando os fãs em completo estado de ansiedade pelo próximo capítulo.
NOTA: 9/10
The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon está disponível para PS4, PS5, Nintendo Switch 1, Nintendo Switch 2 e PC (Steam, GOG e Epic Games).
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