[REVIEW] TALES OF BERSERIA REMASTERED É UM REMASTER QUE NINGUÉM PEDIU, MAS É BEM-VINDO

O projeto de remasterizações em celebração ao 30º aniversário da franquia Tales of começou com Graces f e Xillia. No entanto, o remaster de Berseria pegou a comunidade de surpresa e gerou questionamentos quando foi anunciado pela primeira vez. Lançado originalmente em 2016, Tales of Berseria nunca esteve inacessível para o público moderno, rodando nativamente no PC e via retrocompatibilidade no PlayStation 5. Diante disso, a existência de Tales of Berseria Remastered soa, à primeira vista, como algo redundante. Mas se o remaster falha em entregar um visual melhor, o valor prático deste relançamento se apoia na estreia inédita no Xbox e Nintendo Switch, além de melhorias de QOL. Quase uma década depois, revisitar a fúria e o trauma de Velvet Crowe nos força a encarar um JRPG com uma narrativa sombria, mas que ainda se vê presa a um sistema de combate desbalanceado que não envelheceu bem.

HISTÓRIA: Uma Sombria e Irretocável Jornada de Vingança

Se há um aspecto em que Tales of Berseria se consagra, é a sua narrativa. Ambientado no mundo de Desolation, o enredo apresenta o Sagrado Império de Midgand, um arquipélago onde a corrupção velada prospera sob uma fachada de ordem religiosa mantida pela Abby. A sociedade coexiste com os malakim (espíritos escravizados pela humanidade) e sofre com a daemonblight, uma praga que transforma humanos em demônios violentos (daemons).

Nesse cenário desolador conhecemos Velvet Crowe, a primeira protagonista feminina solo da franquia. Após uma tragédia pessoal avassaladora que culminou na morte de seu irmão caçula, Velvet é amaldiçoada com uma sinistra mão esquerda demoníaca que a obriga a consumir monstros para sobreviver. Consumida pelo trauma, ela parte em uma busca implacável por vingança contra o homem que destruiu sua vida.

A escrita não se intimida pela escuridão da premissa; a agonia e o peso moral das ações de Velvet são bem conduzidas do começo ao fim. O carisma se extende ao restante do grupo de anti-heróis, cujas dinâmicas são aprofundadas pelas clássicas skits, que injetam doses de leveza sem arruinar o tom maduro da campanha. Vale destacar que o jogo é uma prequel de Tales of Zestiria, mas sua trama é completamente independente.

GRÁFICO E SOM: Estabilidade Técnica

Como o jogo original já rodava a estáveis 60 FPS e em alta resolução no PS4, a Bandai Namco não se deu ao trabalho de realizar um retrabalho visual expressivo. Não espere refinamentos nas texturas ou uma repaginação gráfica do nível de Tales of Arise. O visual em si apenas segura a barra para um título de 2016.


Ainda assim, a direção artística envelheceu bem. Os modelos dos personagens permanecem expressivos, os efeitos das Artes continuam visualmente impactantes e a identidade visual do jogo segue charmosa mesmo sem grandes melhorias técnicas.

Quanto ao som, o trabalho de dublagem original e a trilha sonora continuam excelentes. A única e sutil ressalva técnica desta remasterização fica por conta da mixagem de áudio em determinados confrontos, onde alguns efeitos sonoros de batalha soam excessivamente estourados ou altos além da conta, um detalhe menor que não chega a comprometer a experiência geral, mas que denota um leve descuido na pós-produção.

JOGABILIDADE: Avanços de Quality of Life


A estrutura de exploração fora das batalhas mantém mecânicas passivas agradáveis, como o sistema de culinária e as Expedições marítimas de navios piratas em tempo real (que rendem tesouros e itens cosméticos), além da coleta de Katz Spirits e Tales Coins. O ponto baixo fica por conta dos mapas e dungeons, que trazem um design linear de corredores simplistas e puzzles excessivamente fáceis, mitigados apenas pelo uso da Geoboard para acelerar a travessia.

O combate, por sua vez, adota o formato de árvore de combos, alimentado pelo Soul Gauge e pelo Blast Gauge (BG), usado para as Mystic Artes e trocar de personagens no meio da ação. Em teoria, é um sistema dinâmico e focado em risco e recompensa, construído para incentivar adaptação constante e sinergia entre os membros do grupo. Na prática, ele é completamente quebrado pela Velvet.

A habilidade Break Soul da protagonista a torna temporariamente imortal, causa danos massivos, remove efeitos negativos e cura seu HP com extrema facilidade. Velvet é tão absurdamente apelativa que anula a necessidade de estratégia ou de alternar o controle para outros membros do grupo. Mesmo nas dificuldades mais altas, o combate se resume a um esmagamento de botões com a Velvet, o que estraga o senso de progressão mecânica a longo prazo e torna as lutas repetitivas.

As Novidades do Remaster (QoL)

Onde o jogo peca em ambição gráfica, ele tenta compensar com excelentes adições práticas de conveniência. A movimentação padrão dos personagens pelos cenários foi acelerada em 20% e o recolhimento de items no mapa agora exige apenas um único clique, sem travar o jogador em caixas de texto irritantes.


O menu de bônus para um New Game+ (como dobro de EXP, aumento de vida e drops melhores) pode ser ativado logo no primeiro minuto de gameplay, funcionando como cheats opcionais ajustáveis. A Inclusão de indicadores claros de objetivos no mapa, ícones de subeventos, sistema de viagem rápida liberado mais cedo, salvamento automático robusto e a opção de reatar batalhas perdidas instantaneamente.


Quase todos os trajes e pacotes extras de itens que antes eram vendidos separadamente agora vêm inclusos na versão base por um preço padrão de lançamento mais baixo que o do jogo original de 2016.

Pontos Positivos:
  • Uma das Melhores Histórias da Franquia: Enredo maduro, sombrio e focado em uma jornada de vingança bem conduzida.
  • Protagonista Memorável: Velvet Crowe transborda carisma, peso emocional e profundidade dramática.
  • Grandes Melhorias de Quality of Life: O aumento de 20% na velocidade de movimento, coleta ágil e salvamento automático tornam o ritmo muito mais dinâmico.
  • Inclusão de Todas as DLCs: Excelente custo-benefício com roupas e pacotes adicionais integrados no jogo base.
  • Estreia no Xbox e Switch: Expande a acessibilidade do título para novos ecossistemas de jogadores.

Pontos Negativos:

  • Combate Desbalanceado: A apelação excessiva de Velvet quebra o desafio do jogo e incentiva o esmagamento de botões sem estratégia.
  • Dungeons Simplistas: Cenários lineares com quebra-cabeças bobos que não oferecem um desafio de navegação satisfatório.
  • Falta de Ambição Técnica: Ausência total de melhorias gráficas ou de texturas que justifiquem o selo de Remastered para quem já joga no PC ou PlayStation.
  • Escolha Questionável de Port: O esforço da Bandai Namco seria mais bem aproveitado resgatando títulos clássicos da franquia que continuam completamente inacessíveis hoje em dia por meios legais.
RESUMO
A sua existência de Tales of Berseria Remastered como remasterização é desnecessário, já que o título não apresenta saltos visuais e já rodava com bom desempenho nas plataformas antigas. Entretanto, para novos jogadores que nunca tinham jogado o original ele oferece uma das narrativas mais impactantes e maduras dos JRPGs por um preço reduzido, recheado de conteúdos adicionais e com ajustes de velocidade para poupar o tempo do jogador. O grande destaque continua sendo sua história. Poucos JRPGs modernos conseguem equilibrar temas tão pesados com personagens tão carismáticos e bem escritos. Mesmo quase uma década após seu lançamento original, a jornada de Velvet Crowe permanece entre as mais memoráveis do gênero. Se você possui um Xbox ou Nintendo Switch e nunca testemunhou a fúria de Velvet Crowe, o título é uma recomendação obrigatória; para os que já jogaram o original no PlayStation e PC, resta apenas aguardar que a Bandai Namco direcione esse mesmo esforço para resgatar Tales of Abyss ou jogos mais antigos da franquia.


NOTA: 8/10

Tales of Berseria Remastered está disponível para PS5, Xbox X|S, Nintendo Switch 1, Nintendo Switch 2 e PC (Steam).

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