[REVIEW] KYOTO XANADU TRAZ AÇÃO, MISTÉRIO E DRAMA JUVENIL


O retorno de uma franquia sempre traz consigo uma mistura de expectativa e nostalgia, mas a Nihon Falcom decidiu ousar ao levar sua fórmula para novos horizontes. Em Kyoto Xanadu, a agitação de Tokyo dá lugar ao charme histórico e místico de Kyoto, servindo de palco para uma nova geração de estudantes. Misturando um ciclo viciante de rotina acadêmica, laços sociais e exploração de calabouços cheios de perigos, o título revitaliza a identidade da série ao apostar em um enredo juvenil vibrante e mecânicas de ação renovadas. Vale a pena destacar que alguns termos presentes nessa review aparecem em japonês acompanhados de sua romanização, pois a versão jogada foi a edição japonesa no PS5 Pro.

HISTÓRIA: Acolhimento e Segredos

A história de Kyoto Xanadu se passa em uma versão fictícia de Kyoto, 11 anos após os acontecimentos de Tokyo Xanadu. O protagonista é Kamiya Rei, um estudante de 17 anos de personalidade descontraída e com um passado marcado por pequenos atos de delinquência e furtos. Enquanto tenta escapar de integrantes da yakuza, Rei acaba sendo arrastado para um desastre dimensional conhecido como Eclipse, dando início aos eventos da história.

Após despertar seus poderes como Tekikakusha (適格者), ele é forçado a se transferir para a Hirasaka Gakuen (比良坂学園), um colégio especial que serve de quartel-general para jovens com essas habilidades. Diferente do protagonista da obra anterior, que era um estudante exemplar e comum arrastado para os eventos, Rei começa sua jornada na base do ranking escolar e com motivações um tanto financeiras.

A narrativa mistura elementos de juventude, drama, amizade, romance e mistérios profundos envolvendo a origem dos monstros Greed (グリード) e do gigantesco Eclipse existente sob a escola, oferecendo um bom nível de profundidade e um rico cenário com termos clássicos da franquia como Cyphon, Soul Device, Zodiac, Nemesis e novas dinâmicas de hierarquia estudantil.

Conforme novos companheiros entram para a equipe, o jogo desenvolve seus conflitos pessoais, inseguranças e objetivos através de eventos opcionais, criando um forte senso de amizade e crescimento coletivo. Veteranos ainda encontrarão diversas referências ao universo de Tokyo Xanadu, enquanto os novatos conseguem acompanhar a história sem qualquer dificuldade graças ao glossário interno, que explica toda a terminologia da série. Embora o foco maior esteja no drama juvenil, alguns jogadores podem sentir falta da atmosfera mais misteriosa e opressiva do primeiro jogo, já que os Greed deixam de ser uma ameaça desconhecida para assumirem um papel mais rotineiro dentro do sistema de missões e do ranking da escola.

GRÁFICO E SOM: O Charme Visual e Sonoro de Kyoto

A maior mudança visual é a adoção de cenários em 2D em rolagem lateral durante grande parte do jogo. Tanto a exploração das dungeons quanto boa parte da movimentação por Kyoto utilizam esse formato, enquanto batalhas contra chefes acontecem em ambientes totalmente 3D. À primeira vista, essa escolha pode transmitir uma impressão de produção mais simples, mas na prática melhora muito a visibilidade, elimina problemas de câmera e torna a exploração mais fluida. O sistema favorece bastante o level design inspirado em metroidvania, permitindo observar caminhos, segredos e atalhos com facilidade.

As expressões faciais receberam um salto de qualidade em relação ao jogo anterior, tornando as cenas mais expressivas e facilitando a conexão emocional com os personagens. A direção artística mistura ambientes urbanos japoneses com cenários sobrenaturais de maneira bastante agradável. Ainda assim, fica a sensação de que seria interessante explorar uma versão totalmente 3D de Kyoto, principalmente por utilizar diversos pontos inspirados em locais reais.

A trilha sonora mantém o alto padrão tradicional da Falcom, alternando músicas tranquilas para a vida escolar com temas energéticos durante as batalhas. Os efeitos sonoros reforçam muito bem o impacto dos golpes, especialmente durante ativações do Soul Accel, parries e habilidades especiais.

JOGABILIDADE: Ciclo Escolar Dinâmico e Combate Ágil
O ciclo de gameplay é estruturado em uma rotina que lembra simuladores de vida escolar misturados com dungeon crawling. O jogo divide naturalmente o progresso entre aulas, exploração, atividades após a escola e o retorno para casa, criando um ritmo extremamente viciante em que sempre existe mais uma tarefa para realizar antes de encerrar o dia.

Aulas

O jogador consome recursos de Action Cards e gasta CP para focar em Shuuchuuryoku (集中力), elevando atributos como Gakuryoku (学力) e os níveis de Chi/Yuu/Jin (智/勇/仁). Nem todas as cartas possuem o mesmo valor. Algumas aumentam significativamente o desempenho durante determinada aula, enquanto outras oferecem efeitos especiais, como bônus quando determinados companheiros participam da mesma disciplina. Isso adiciona uma camada estratégica inesperada ao gerenciamento do calendário escolar.


Os níveis de Chi/Yuu/Jin (智/勇/仁) também não servem apenas para aumentar atributos. Conforme evoluem, desbloqueiam habilidades permanentes em uma árvore de progressão bastante útil para a exploração, incluindo melhorias que permitem recuperar HP ao permanecer parado, localizar baús automaticamente ou facilitar diversos aspectos das dungeons.

Exploração de Dungeons

O combate de Xanadu é um RPG de ação dinâmico em 2D de rolagem lateral, focado em uma jogabilidade extremamente fluida e responsiva, característica marcante da Falcom. Conta com ataques fracos e fortes, pulos, esquivas, ataques à distância, combos, sistema de Just Guard/Parry e habilidades especiais que tornam os confrontos bastante variados.


A exploração vai muito além de simplesmente derrotar inimigos. Conforme novas habilidades são adquiridas, áreas anteriormente inacessíveis passam a ser exploráveis, incentivando o retorno constante às dungeons para descobrir passagens ocultas, atalhos, novos baús e chefes opcionais. Essa estrutura lembra bastante jogos do gênero metroidvania, onde a evolução do personagem expande gradualmente o mapa disponível e recompensa jogadores curiosos. Além da exploração tradicional, cada andar do labirinto apresenta objetivos adicionais, como purificar estátuas corrompidas que liberam o Genso (幻素). Quanto mais desse recurso o jogador acumula durante a exploração, maiores são as recompensas obtidas ao retornar para a escola. Porém, ultrapassar determinado limite provoca um estado de intoxicação, reduzindo gradualmente a vida do personagem e dificultando sua recuperação. Isso obriga o jogador a decidir entre continuar explorando em busca de mais recompensas ou retornar antara liberar confrontos contra chefes especiais e enfrentar inimigos mais poderosos.es que a situação fique perigosa.

Combate

Outro destaque estratégico é a troca em tempo real de personagens baseada em atributos elementares de Honoo, Koori, Kaze e Hagane (焔/氷/風/鋼) . Os companheiros participam ativamente das batalhas, atacando automaticamente enquanto o jogador controla apenas um personagem por vez. Alternar rapidamente entre eles para explorar as fraquezas elementares dos inimigos torna os confrontos muito mais dinâmicos e estratégicos.

O uso do modo Soul Accel  representa um dos momentos mais empolgantes do combate. Durante sua ativação, os personagens tornam-se significativamente mais fortes, conseguem atingir as fraquezas de qualquer inimigo independentemente do elemento utilizado e executam ataques com área de efeito ampliada, proporcionando uma excelente sensação de poder. O sistema de Parry também merece destaque. Ao realizar um bloqueio perfeito, é possível desencadear um poderoso contra-ataque conhecido como Issen (一閃), acompanhado de efeitos visuais bastante chamativos que tornam cada defesa bem executada extremamente satisfatória.

Embora a maior parte da exploração aconteça em 2D, as batalhas contra chefes mudam completamente o ritmo da jogabilidade ao transportar o jogador para arenas tridimensionais. Nesses momentos, o combate lembra bastante os títulos mais recentes da série Ys, aproveitando toda a experiência adquirida pela Falcom ao longo da última década no desenvolvimento de Action RPGs.

Fase Social/Pós-Aulas

Você gasta AP e FP para interagir com aliados, fortalecer laços através de eventos de personagem e desbloquear melhorias na árvore de habilidades.

Além dos eventos principais, o jogador pode participar de diversas atividades opcionais pela cidade, frequentar estabelecimentos, experimentar comidas, trabalhar em empregos temporários, estudar em casa e melhorar gradualmente seus atributos antes de iniciar um novo dia. Essa alternância constante entre exploração, convivência social e administração do tempo faz com que o ciclo diário seja extremamente envolvente, transmitindo aquela clássica sensação de só mais um dia antes de encerrar a sessão.

A progressão também é bastante consistente. Embora as primeiras horas sejam relativamente simples, novas mecânicas, personagens, habilidades de exploração e opções estratégicas vão sendo desbloqueadas continuamente, fazendo com que a segunda metade da campanha seja muito mais rica e variada do que a introdução. Com uma duração que ultrapassa facilmente 50 horas, Kyoto Xanadu oferece conteúdo suficiente para manter o jogador ocupado por muito tempo, equilibrando ação, exploração, evolução dos personagens e momentos de descontração de forma bastante competente.

Pontos Positivos

  • Ciclo de Gameplay Envolvente: A rotina entre aulas, exploração de masmorras e interações sociais cria um ritmo excelente de mais um turno/mais um dia, gerando forte fator quero jogar só mais um pouco.
  • Combate Dinâmico e Responsivo: A ação lateral herdada da expertise da Falcom é ágil, contando com mecânicas gratificantes como o parry e o modo Soul Accel.
  • Exploração com Estrutura Metroidvania: A mudança para o formato 2D funciona surpreendentemente bem, oferecendo mapas com atalhos, áreas bloqueadas, segredos escondidos e novas habilidades que expandem constantemente as possibilidades de exploração.
  • Personagens Carismáticos e Bem Desenvolvidos: A história com forte pegada juventude agrada fãs de dramas escolares, explorando bem o crescimento, dilemas e laços dos protagonistas com ótimas expressões faciais.
  • Fan Service Nostálgico: Para quem jogou o título anterior Tokyo Xanadu, há ótimas referências a empresas, corporações e eventos passados que geram nostalgia, embora o jogo seja totalmente acessível para novatos.
  • Grande Volume de Conteúdo: Com uma campanha que pode ultrapassar 50 horas, diversas atividades opcionais, eventos de personagens, exploração e sistemas de evolução, Kyoto Xanadu oferece uma experiência bastante completa e duradoura.
Pontos Negativos
  • Transição para o 2D Lateral: A decisão de mudar a exploração de dungeons e áreas da cidade para o formato 2D de rolagem lateral reduz a sensação de imersão espacial em comparação aos mundos 3D tradicionais da empresa.
  • Inconsistência Gráfica: Modelos 3D de NPCs secundários e certos elementos da interface são visualmente poluídos e abaixo do padrão moderno esperado da desenvolvedora.
  • Redução da Atmosfera de Terror/Tensão: Enquanto o primeiro jogo tratava os monstros Greed como ameaças assustadoras e desconhecidas à sociedade, a dinâmica deste título as posiciona de forma mais casual como alvos de pontuação e ranking escolar, diminuindo o peso dramático das invasões dimensionais.
  • Início Mais Lento: As primeiras horas apresentam uma quantidade menor de mecânicas, personagens e possibilidades, fazendo com que a experiência demore um pouco para mostrar todo seu potencial. O jogo cresce bastante conforme novos sistemas são desbloqueados.
RESUMO
Em Kyoto Xanadu a Falcom traz uma mistura cativante de JRPG sobre a juventude, exploração de dungeons e um sistema de vida acadêmica decente.  Embora algumas escolhas técnicas, como a adoção do formato lateral e certas limitações visuais, possam dividir opiniões entre fãs mais tradicionais, o jogo brilha justamente onde mais importa que é na jogabilidade, no carisma dos personagens, no sistema estratégico de atributos e na capacidade de criar um ciclo de progresso extremamente viciante. Com dezenas de horas de conteúdo e um ciclo de jogo altamente polido, é uma recomendação sólida tanto para veteranos da franquia quanto para novatos que buscam uma aventura rica em carisma e ação.

NOTA: 9/10

Kyoto Xanadu está disponível para PS5, Nintendo Switch 1, Nintendo Switch 2 e PC (Steam). Atualmente o jogo se encontra em japonês, coreano, chinês tradicional e chinês simplificado. Uma localização para o inglês está confirmada, mas sem data de lançamento.

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