[REVIEW] MUSICAIS E ISEKAI EM ETRANGE OVERLORD

Etrange Overlord mostra que um RPG não precisa ser enorme para ser marcante. Criado por Sohei Niikawa, conhecido pela franquia Disgaea, o jogo aposta em uma aventura mais enxuta, repleta de humor, personagens carismáticos e um sistema de combate com mecânicas rítmicas. Ao narrar a saga de Étrange, uma maga poderosa que decide transformar o submundo em seu novo lar após ser injustamente executada, o jogo abandona qualquer resquício de seriedade em favor de um humor ácido, autoconsciente e cativante.

HISTÓRIA: A Ascensão da Overlord

Etrange Overlord narra a jornada de Étrange von Rosenburg, uma maga talentosa que, após ser executada sob uma acusação falsa, acaba no inferno. Longe de ser uma tragédia, essa premissa serve como o ponto de partida para uma aventura que subverte tropos de Isekai e fantasias tradicionais. O roteiro, assinado por mentes por trás da franquia Disgaea, é marcado por um humor ácido, slapstick e diálogos ágeis, equilibrando situações absurdas, como Cérbero se tornando um trio de garotas-gato obcecadas por doces, com momentos de genuína profundidade.


O grande triunfo narrativo do jogo é a forma como ele contrapõe esse exterior cômico com temas maduros sobre religião, o livre-arbítrio e a rejeição de destinos pré-determinados. Étrange não é a típica heroína que precisa de crescimento clássico; ela já inicia sua jornada com uma personalidade forte, um senso de justiça inabalável e uma filosofia de vida que inspira todos ao seu redor. Ao longo da aventura, ela oferece conselhos práticos, muda o destino de diversas pessoas e constrói uma verdadeira família encontrada, formada por personagens tão excêntricos quanto carismáticos.

Mesmo com um elenco bastante numeroso, o jogo consegue desenvolver bem a personalidade de seus aliados através de diálogos naturais e pequenos eventos opcionais espalhados pelo mapa. Essas cenas secundárias aprofundam os relacionamentos entre os personagens, mostram situações descontraídas, muitas delas envolvendo a paixão de Étrange por doces e novas receitas culinárias, e tornam o grupo extremamente cativante.

Outro aspecto interessante é a forma como o jogo brinca com a percepção tradicional do inferno. Conforme a narrativa avança, fica evidente que o mundo deixado para trás por Étrange pode esconder horrores ainda maiores do que o próprio submundo, culminando em conflitos ideológicos bastante interessantes entre céu, inferno e os próprios conceitos de justiça e felicidade.

Embora o jogo seja anunciado como um musical, essa característica acaba aparecendo apenas em momentos específicos. As músicas são agradáveis e ajudam a reforçar a identidade da obra, mas sua utilização é relativamente discreta e poderia ter recebido maior destaque durante a campanha.

GRÁFICO E SOM: Estilo e Ritmo


O design visual de Etrange Overlord é focado e coeso. O jogo adota uma estrutura de mapa-múndi compacta, que serve como um hub para missões rápidas de ação. Apesar de não impressionar pelo realismo gráfico, sua direção de arte é extremamente charmosa, utilizando cores vibrantes, personagens expressivos e animações que reforçam tanto o humor quanto os momentos dramáticos da narrativa.

Os cenários são relativamente simples, mas funcionam muito bem dentro da proposta do jogo, priorizando o ritmo da aventura em vez de grandes áreas abertas. Essa filosofia de design contribui para que praticamente não existam momentos de enrolação durante a campanha.

A trilha sonora acompanha muito bem cada situação, alternando entre temas descontraídos, batalhas intensas e momentos emocionantes. Os números musicais, apesar de divertidos, aparecem em quantidade menor do que o esperado para uma obra que se apresenta parcialmente como uma aventura musical, dando a sensação de que esse conceito poderia ter sido explorado de forma mais consistente.

JOGABILIDADE: Simplicidade e o Sistema de Lane

A jogabilidade funciona com um loop que consiste em realizar missões curtas de ação através do mapa-múndi, retornando posteriormente à base Macaron para fortalecer equipamentos, cozinhar pratos, melhorar habilidades e preparar a equipe para os próximos desafios. É possível levar quatro personagens para cada missão e alternar entre eles livremente durante os combates. Cada integrante possui características próprias, como foco em ataques corpo a corpo ou combate à distância, mas suas diferenças mecânicas acabam sendo relativamente discretas.

Combate Direto

Os controles são responsivos e rápidos, com esquivas satisfatórias. No entanto, o sistema de combate básico é extremamente simples, com poucos combos e ataques especiais por personagem, o que pode tornar a experimentação com o vasto elenco menos significativa do que o desejado. Apesar dessa simplicidade, o jogo consegue manter o interesse graças à enorme variedade de objetivos nas missões. Além de eliminar inimigos, há fases com entregas contra o tempo, desafios específicos e chefes que exigem estratégias próprias, evitando que tudo se resuma apenas a atacar continuamente.

O Diferencial (Lane System)

Para compensar a simplicidade mecânica, o jogo introduz o Lane System. Itens, bombas, cargas de energia e bônus fluem pela tela em trilhas (lanes) durante o combate. O jogador precisa interagir com essas trilhas para otimizar ataques ou superar gincanas contra chefes. É uma mecânica gratificante que exige timing e estratégia, salvando o combate da monotonia.

Progressão

O gerenciamento da base Macaron inclui lojas, melhorias de armas, culinária e sistemas de coleta automática de materiais. Preparar refeições concede bônus temporários importantes para as batalhas, enquanto as melhorias nos equipamentos ajudam a enfrentar desafios mais avançados. Por outro lado, a evolução das armas exige uma quantidade elevada de recursos nas etapas finais do jogo. 


Embora seja possível enviar aliados em expedições para coletar materiais automaticamente, esse processo acaba introduzindo um nível de repetição que destoa do excelente ritmo apresentado durante o restante da campanha. Ainda assim, a progressão permanece bastante acessível, evitando árvores de habilidades excessivamente complexas ou sistemas de evolução desnecessariamente complicados.

Pontos Positivos:
  • Escrita e Elenco: Personagens com diálogos afiados e um elenco carismático que carrega o jogo.
  • Ritmo Impecável: Uma experiência focada de 15-20 horas onde cada elemento serve a um propósito.
  • Sistema de Lane: Uma mecânica de combate criativa que adiciona profundidade e variedade a um sistema básico.
  • Temática Original: O equilíbrio raro entre a sátira ácida e reflexões filosóficas sobre fé e vontade própria.

Pontos Negativos:

  • Profundidade do Combate: A simplicidade extrema dos ataques básicos pode frustrar jogadores que buscam sistemas complexos de combos.
  • Grind de Materiais: O aprimoramento de armas pode exigir um esforço repetitivo que contrasta com a natureza dinâmica do resto do jogo.
  • Elemento Musical: As partes musicais prometidas parecem escassas e, por vezes, superficiais.
  • Balanço de Dificuldade: O nível de desafio é irregular, podendo ser fácil demais dependendo das escolhas de upgrade.
RESUMO
Etrange Overlord é uma das surpresas mais agradáveis do ano, extremamente bem polido em sua proposta. Ele não tenta ser um épico de 100 horas com sistemas desnecessários; em vez disso, entrega uma jornada compacta e perfeitamente ritmada. O criativo Lane System acrescenta personalidade ao combate, enquanto a variedade de objetivos e os confrontos contra chefes impedem que a campanha caia na monotonia. Se por um lado a simplicidade mecânica, o grind de materiais e a dificuldade pouco exigente impedem que alcance a excelência absoluta, por outro Etrange Overlord entrega exatamente aquilo que se propõe: uma experiência memorável, divertida e cheia de personalidade. É uma obra que demonstra que nem todo RPG precisa ter centenas de horas de conteúdo para deixar uma marca duradoura, sendo um excelente exemplo de como foco, boa escrita e criatividade podem resultar em uma aventura verdadeiramente especial.

NOTA: 8/10

Etrange Overlord está disponível para PS4, PS5, Nintendo Switch 1, Nintendo Switch 2 e PC (Steam e Epic Games).

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